Testes médicos em casa: o futuro do diagnóstico clínico é DIY?

Nos últimos anos, o número de testes médicos que podem ser feitos a partir de casa tem vindo a crescer. A pandemia veio acelerar a tendência.

Ao longo das décadas, tornaram-se habituais vários métodos de extração de dados, referentes à saúde de um paciente, sem a necessidade da presença de um técnico de saúde. Testes rápidos através de picadas no dedo ou saliva não são novos, no entanto, nos últimos anos, a inovação constante fez-nos chegar homekits que nos permitem fazer cada vez mais testes em casa.

Da doença celíaca até deficiências nutricionais, os testes de diagnóstico em casa permitem-nos até testar a fertilidade (Fertility Measurement Index) ou encontrar causas hormonais para sintomas crónicos como a fadiga, problemas digestivos, dores de cabeça ou, por exemplo, detetar apenas um composto, como a HbA1c na diabetes.

O tempo é um dos ativos mais escassos na saúde, e a dificuldade de locomoção de populações maioritariamente mais envelhecidas veio reforçar a crescente disponibilização de opções domiciliárias para testes DIY (Do-It-Yourself), realizados pelos pacientes. Sendo que o reforço ao apelo desta solução foi estimulado, ainda mais, durante a pandemia.

Mas que inovações existem nesta área dos testes médicos em casa? Antes de responder a esta questão vamos definir o que existe e quais as diferenças:

O que são e como funcionam os testes médicos em casa?

A FDA define os testes de diagnóstico e monitorização no domicílio como métodos que não exigem prescrição médica e que podem ser adquiridos e usados por qualquer pessoa em casa.

Estes testes médicos em casa variam no grau de intervenção necessária pelo paciente, por isso quando falamos em testes podemos estar a referir-nos a:

  • Monitorização: para a realização de testes simples que envolvem a medição de parâmetros de saúde (pressão arterial, frequência cardíaca, sinais vitais, prática de exercício físico), a intervenção do paciente é reduzida. Basta que esteja ligado a um aparelho de medição (uma wearable technology, i.e. um dispositivo vestível que deteta, analisa e transmite informação relativa a sinais vitais) que este depois apresenta os resultados, ou comunica os dados a um laboratório para análise. O paciente acede aos resultados sem que seja necessário realizar uma colheita ou um exame.
  • Colheita em casa, realização do exame em laboratório: neste tipo de testes médicos ao domicílio, aplicável ao HIV, doença de Lyme, ou cancro colorretal, por exemplo, o método de obter as amostras pode variar entre coleta de saliva e de células por raspagem da mucosa bucal, coleta de amostra sanguínea por picada no dedo (punção digital), até à recolha de fezes para pesquisa de presença de sangue nas fezes. Estas amostras são recolhidas pelo paciente de forma autónoma através de um homekit e, posteriormente, enviadas para um laboratório para análise. A existência de prescrições médicas, para este tipo de testes realizados pelo paciente em casa, estão associadas a maiores taxas de rastreamento, que se traduzem, por fim, numa maior rapidez de deteção de problemas que demorariam de outra forma a serem detetados.
  • Colheita e teste em casa: este é o verdadeiro teste DIY, o tipo de teste médico em casa mais exigente para o utilizador. Primeiro, o paciente realiza a colheita em casa. Depois, recorrendo a um kit, realiza todo o exame de forma autónoma. Neste tipo de testes, para além da dificuldade na recolha, e da não contaminação da amostra caseira, coloca-se também a dificuldade acrescida da interpretação dos resultados. Apesar destas preocupações, aquilo que já acontece há vários anos para testes de gravidez ou diabetes está a começar a ser possível para uma gama mais variada de testes como alergias alimentares, COVID-19, infeções ou ADN.

Que inovações existem nos testes médicos em casa?

Testes médicos em casa, aparelhos portáteis, smartphones e outras tecnologias permitem novas formas de diagnosticar, monitorizar e até tratar doentes. Segundo a Delloite Center for Health Solutions, as novas soluções seguem uma linha de proporcionar não só melhor tratamento, mas mas também a prevenção de doenças e a promoção da saúde e bem-estar. Testes de diagnóstico mais precisos ajudam à gestão das doenças crónicas e à identificação do risco de aparecimento de futuras doenças. Podemos identificar alguns exemplos:

  • Exames de microbiota para melhorar a dieta – Estes testes proporcionam recomendações sobre nutrição e hábitos personalizadas e adaptadas à composição da microbiota. Alguns testes providenciam informação sobre micro-organismos associados a infeções específicas e desequilíbrios do metabolismo.
  • Sequenciamento do genoma com plano de saúde preventivo – ajudam a identificar a presença ou a falta de fatores genéticos que indiquem o nível de risco do paciente relativamente a doenças hereditárias comuns, como cancros e doenças cardíacas. Alguns fornecedores destes testes providenciam acesso a aconselhamento e uma app interativa que permite aos pacientes partilharem os resultados dos testes com o seu médico.
  • Testes de sangue conectados a apps – Conectar um wearable que recolhe a amostra sanguínea através de punção digital a uma app permite obter resultados personalizados que indicam próximos passos aos pacientes, aconselhamento médico e até a partilha da informação com os profissionais de saúde.
  • Monitores cardíacos – Devices de monitorização de arritmia que se ligam a um smartphone e podem realizar eletrocardiogramas (ECG) em 30 segundos – o utilizador coloca o dedo no aparelho e este envia o ECG diretamente aos técnicos de saúde que podem analisar padrões e diagnosticar sintomas.

Estes são apenas alguns exemplos de testes médicos que têm cruzado as fronteiras dos hospitais, centros de saúde ou laboratórios, para passarem a estar disponíveis diretamente nas nossas casas.

Mas também existem riscos, ao ponto da FDA (Food and Drug Administration), nos EUA, ter proibido os testes em casa de COVID-19, depois não conseguir garantir as condições necessárias à realização dos testes.

Em Portugal, esta tendência ainda não é significativa, mas estará o panorama prestes a mudar?

O mercado dos testes médicos ao domicílio

O número de start-ups e players presentes neste setor tem crescido de forma relevante e alguns dos nomes mais reconhecidos do momento especializam-se em testes dos seguintes tipos: genéticos, alergias alimentares, menopausa, HPV, Doença Lyme, diabetes, urina, sono, saliva, HIV, tiroide e colesterol.

Estima-se que o mercado de exames médicos caseiros represente, atualmente, cerca de 350 milhões de euros a nível mundial.

Ao todo, nos Estados Unidos da América, onde a tendência se tem vindo a desenvolver mais depressa, são já mais de 200 os testes aprovados para realização ao domicílio.

Os responsáveis das empresas asseguram que os testes são iguais aos que são pedidos num gabinete médico presencial, mas a comunidade médica está dividida.

Os pros e contras dos testes ao domicílio

Os benefícios dos testes ao domicílio são apelativos. Porquê ir a um gabinete médico quando se pode fazer o teste em casa? É conveniente, eficiente, confidencial e alivia o sistema nacional de saúde – vantagens que a COVID-19 veio acentuar.

No entanto, a comunidade médica aponta alguns riscos. Em grande medida, os testes no domicílio exigem que sejapróprio paciente a tratar da recolha da amostra. Como a maioria das pessoas não tem esta experiência, é provável que surjam erros. Aqui reforça-se o papel do suporte clínico especializado que pode ser dado previamente em suporte online ou presencial – os hospitais e as clínicas, tanto do sector privado como público, não estão então afastados deste processo, antes pelo contrário: A sua participação é essencial no apoio ao doente e na garantia de que esta via digital e à distância garante um melhor tratamento e acesso a dados do doente.

Outra questão essencial para a penetração dos exames médicos caseiros será a comparticipação das seguradoras. Neste momento, encontram-se alguns exemplos de seguradoras que já incluem a possibilidade de realizar testes em casa. No entanto, a prática não é generalizada.

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Que futuro para os testes médicos ao domicílio?

A tendência é de aceleração para os testes médicos ao domicílio, principalmente entre pessoas saudáveis, que mostram uma maior recetividade. Segundo um estudo da Deloitte, 43% dos entrevistados está disponível para realizar exames ao domicílio, se fossem comparticipados pelas seguradoras na mesma medida do que os testes tradicionais.

As colheitas e os testes para diagnosticar infeções (como infeções nos rins, na garganta ou do trato urinário) são os que reúnem maior consenso – 51% dos inquiridos afirmou que se sentiria confortável em realizar este procedimento em casa. Em segundo lugar, com 45% de aceitação, os exames genéticos.

O impacto para o setor da saúde e transformação digital

Os testes caseiros, muitas vezes suportados por wearables, possibilitam novas formas de diagnosticar, monitorizar e gerir pacientes e terapêuticas. À medida que os testes se tornam mais familiares para os pacientes, e a diversidade de testes aumenta, os consumidores vão precisar cada vez mais de informação, incluindo conselhos médicos.

O ónus de aumentar a literacia clínica recairá, em parte, sobre as seguradores, hospitais e grandes empresas. A organização do futuro terá um papel educador e de parceiro na orientação para o auto-cuidado – tanto nas bases para a saúde e bem-estar, como no uso de ferramentas e plataformas digitais.

Para além de educar a população, o desafio estará em identificar as soluções de diagnóstico mais eficazes e de as integrar nos planos de saúde. As organizações devem fornecer plataformas intuitivas, atendimento de qualidade e assegurar a segurança e privacidade das informações pessoais e de saúde.

Para os utentes, que procuram conveniência, melhorias na saúde e redução de custos, haverá uma expectativa crescente de que os médicos e sistemas de saúde recebam todos os fluxos de dados e determinem o que fazer com eles.

No que toca aos profissionais de saúde, a palavra chave é a simplificação das ferramentas digitais. A implementação dos testes médicos ao domicílio e a partilha dos resultados com instituições médicas pode aliviar a carga administrativa e libertar tempo para o doente. A adoção desta tecnologia dependerá da fiabilidade dos resultados e da eficiência com que a informação é integrada, tratada e disponibilizada nos sistemas existentes – a colaboração dos profissionais e instituições de saúde para a motivação e confiança dada aos doentes é fundamental.

Para as seguradoras, a perspetiva é que o valor (e quantidade) dos dados continue a crescer. Para dar resposta, será necessário capacitar as equipas com a capacidade analítica correspondente, bem como com a infraestrutura necessária para lidar com novas streams de dados. O advento dos testes ao domicílio trará também novas preocupações de cibersegurança e de utilização dos dados dos clientes que será necessário acautelar. As primeiras organizações que o conseguirem fazer estarão numa boa posição para conquistar este segmento mercado em que a conveniência é chave.

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Para as grandes empresas portuguesas que procuram atrair talento, a preocupação com a saúde e bem-estar dos colaboradores é cada vez mais um fator diferenciador. A disponibilização de inovações na área da saúde ajuda à motivação dos colaboradores a todos os níveis da organização.

O que nos reserva então o futuro do setor da saúde à distância DIY?

O crescimento de testes de diagnóstico em casa e testes genéticos, juntamente com o uso crescente de wearables e ferramentas para medir a saúde e bem-estar, é uma das principais tendências no setor da saúde à distância, potenciada em grande parte pela pandemia.

Estando assegurada a fiabilidade e privacidade destes testes, bem como a inclusão nos planos de saúde, as evidências apontam que a população está pronta para dar as boas vindas a esta inovação. Com o devido aconselhamento e acompanhamento médico, podemos estar perante uma das maiores transformações no setor de diagnósticos médicos.

Cabe aos líderes das empresas, profissionais de saúde e gestores hospitalares antecipar e moldar esta tendência à sua realidade, para posicionar as organizações que gerem de forma a liderar nesta inovação.