Entrevista a Dra. Estela Mateus, de Medicina Interna

A obesidade é um dos grandes desafios de saúde pública da atualidade. No entanto, muitas vezes, é vista apenas pelo seu impacto estético, sem se considerar as suas consequências médicas.

Para esclarecer as diferenças entre obesidade estética e obesidade enquanto doença, contamos com o apoio da Dra. Estela Mateus, de Medicina Interna.

O que é obesidade?

A obesidade é uma doença crónica. É uma condição médica que se caracteriza pelo excesso de gordura que é acumulada no organismo e em que este acúmulo de tecido adiposo, ou seja, gordura, atinge um ponto tal que passa a ter impacto na saúde e na qualidade de vida da pessoa.

A obesidade é considerada pela Organização Mundial de Saúde, para a OMS, como uma epidemia e de tal forma ela está em crescendo, que a preocupação é máxima, celebrando-se no dia 4 de Março o Dia Mundial da Obesidade.

Como é que nós caracterizamos esta doença crónica? Normalmente o parâmetro mais utilizado é o Indice de Massa Corporal, que é utilizado particularmente nos adultos. Como é que se obtém esse valor? É um dado quantitativo que se obtém dividindo o peso em quilos pela altura em metros ao quadrado.


Com esse valor conseguimos dizer se tem um excesso de peso, quando temos o IMC está entre os 25 e os 29.9 kg por metro ao quadrado, ou se entramos no campo da obesidade propriamente dita, quando o IMC é superior ou igual a 30.

IMC

Dentro da obesidade ainda há que dividir em vários graus. No 1 em que o IMC estará entre os 30 e os 34.9 a quilogramas por metro quadrado ou 2, que já é grave, entre os 35 e os 39.9 e o 3, que é chamada obesidade mórbida, é superior ao igual a 40 kg por metro ao quadrado.

IMCClassificação
<18,5Baixo Peso
18,5 – 24,9Peso Normal
25,0 – 29,9Pré-obesidade
30,3 – 34,9Obesidade Grau I
35 – 39,9Obesidade Grau II
>40Obesidade Grau III


Contudo, existem outros parâmetros, nomeadamente a circunferência ou perímetro da cintura e da anca que se está a tornar cada vez mais importante porque ela permite-nos ter outros dados que o IMC só por si não dá, nomeadamente o estado nutricional e o risco para eventos cardiovasculares, bem como as complicações metabólicas que são inerentes à obesidade. Na mulher, para que, na definição de obesidade, considera-se igual ou superior a 88 cm e no homem igual ou superior a 102 cm.

Como é que podemos diferenciar obesidade percebida como um fator estético e a obesidade enquanto condição médica?

A obesidade estética é uma situação clínica, é uma condição em que uma determinada pessoa está acima do peso considerado saudável, mas sem que isso necessariamente afete a saúde do indivíduo, ou seja, a obesidade estética está relacionada principalmente à aparência física e ao padrão de beleza da sociedade em que vivemos.
Muitas vezes pessoas com obesidade estética podem não apresentar complicações metabólicas ou outros problemas de saúde relacionados com o excesso de peso
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Já a obesidade médica, essa tem uma outra importância. É aquela em que o excesso de peso está associado a riscos para a saúde, como por exemplo, o aumento de doenças cardiovasculares, o aumento da hipertensão arterial, o aumento da diabetes mellitus tipo 2, a dislipidemia, ou seja, o colesterol, os triglicerídeos elevados. Isto, entre outros, e nomeadamente determinados tipos de cancros que estão relacionados com a obesidade.

Logo, a principal diferença entre obesidade estética e obesidade médica está relacionada com os impactos que o excesso de peso têm na saúde e no bem-estar do indivíduo. E é importante lembrar que todas as formas de obesidade devem ser levadas a sério, e acompanhadas por profissionais de saúde para prevenir complicações e melhorar a qualidade de vida.

A obesidade é uma consequência do estilo de vida ou há fatores genéticos e hormonais envolvidos?

Tudo isso é verdade. A obesidade tem causas multifatoriais, tem fatores ambientais, como os hábitos do estilo de vida, têm fatores genéticos que em 40 a 60% contribuem para o risco de desenvolver obesidade, bem como fatores metabólicos e hormonais. E não se pode excluir determinadas influências, quer culturais, quer psicológicas e até comportamentais. Portanto, não há uma causa isolada para a obesidade. As causas são várias e, numa determinada pessoa, pode existir apenas uma ou estarem implicadas várias causas na sua obesidade.

De que forma é que o estilo de vida pode contribuir para o aumento da obesidade?

O estilo de vida desempenha um papel fundamental no desenvolvimento da obesidade.
Diversos fatores relacionados com o estilo de vida podem contribuir para o aumento da obesidade, como, por exemplo, uma dieta inadequada, quando há um consumo excessivo de alimentos ricos em gorduras saturadas, de açúcares refinados, fast-food, os alimentos processados, os refrigerantes.

Para além da dieta inadequada, o sedentarismo, o stress e a ansiedade que hoje está tão presente na sociedade em que vivemos e em que nestas situações o uso da comida funciona como uma válvula de escape que leva à desregulação das hormonas que controlam o apetite e, consequentemente, o metabolismo.

A própria qualidade do sono. Uma má qualidade do sono também pode estar implicada. A publicidade dos alimentos não saudáveis e depois a influência social também está aqui seguramente implicada e é por isso que é extremamente importante adotar um estilo de vida saudável que inclua uma alimentação equilibrada, que inclua a prática regular de exercício físico, a gestão do stress e fatores emocionais, que haja um sono adequado de forma que se possa ajudar a prevenir e a combater a obesidade.

É importante neste sentido, que haja um acompanhamento de profissionais de saúde, um acompanhamento médico, de um nutricionista, do psicólogo, do fisiologista do exercício para que se criem orientações personalizadas e adequadas a cada indivíduo.

Quais são os principais riscos para a saúde associados à obesidade?

A obesidade está particularmente associada ao aparecimento de determinadas doenças, como a hipertensão, a diabetes tipo 2, as doenças cardiovasculares, levando tudo isto a um aumento do risco cardiovascular, a própria dislipidemia, e a determinados tipos de cancro. E são muitos. Já começa a haver vários tipos de cancros que estão relacionados com a obesidade. Adenocarcinoma do esófago, um cancro colo retal, um hepático, até a mama ou ovário, útero, a tiroide. Portanto, já há muitos e mais que estes ainda estão relacionados ou estão associados à obesidade.

O que significa obesidade metabolicamente saudável e metabolicamente doente?

Obesidade saudável e a obesidade doença.
A obesidade metabolicamente saudável refere-se a indivíduos que estão acima do peso ou que são mesmo obesos, mas que não têm as características típicas do síndrome metabólico que cursa na obesidade doença, ou seja, não apresentam problemas como, por exemplo, a resistência à insulina, as alterações dos níveis da glicemia, a alteração dos níveis do colesterol, dos triglicerídeos, ou da pressão arterial.

Já, por outro lado, a obesidade metabolicamente doente ou obesidade metabolicamente doença é caracterizada por indivíduos que também estão acima do peso ou que são obesos como os outros, mas que apresentam complicações metabólicas, como a dita resistência à insulina, hiperglicemia, a dislipidemia e hipertensão. Ora, essas condições e muitas vezes não é só umas, são várias associadas, aumentam o risco de desenvolver doenças cardiovasculares. A própria diabetes, como é óbvio, e aumentar o risco cardiovascular, que hoje é, de facto, algo que nos preocupa.

Como resumo, a diferença principal entre obesidade metabolicamente saudável e a doença está relacionada com as complicações metabólicas que estão associadas ao excesso de peso. Ele existe em ambas, mas a metabolicamente saudável, não tem estes fatores de risco, ao contrário daquela que nós consideramos a metabolicamente como doença.

É importante que as pessoas que estão acima do peso procurem o acompanhamento médico para avaliar a sua saúde metabólica, tratar essas doenças que surgem, o que o ideal é prevenir que elas surjam, mas uma vez surgindo que se tratam, que se controlem e que sem dúvida se adotem hábitos saudáveis para que caminhemos no sentido da prevenção e não do tratamento.


Qual o papel da alimentação, da atividade física e do sono na prevenção e tratamento da obesidade?

De facto, a alimentação, a atividade física e o sono desempenham papéis fundamentais na prevenção e no tratamento da obesidade.

A alimentação: consumir uma dieta equilibrada, evitar alimentos processados, controlar as porções ajuda a perda de peso e o controlo do mesmo.

Por outro lado, a atividade física, a prática regular de atividade física promove um gasto calórico, promove o fortalecimento muscular, a saúde cardiovascular e em última instância, a promoção do bem-estar. O vulgar e que se normalmente se recomenda é que haja no mínimo cerca de 150 minutos de atividade física por semana, cerca de 30 minutos em 5 dias da semana, para que de facto haja visibilidade e mais que isso, aquilo que não se vê que é a melhoria e a diminuição dos riscos a que estão inerentes ao excesso de peso.

Por outro lado, o sono. Quer a qualidade, quer a quantidade adequada do sono são importantes na regulação do metabolismo, na regeneração corporal e no controlo ponderal. Nos adultos recomenda-se de uma forma geral, 7 ou a 9 horas de sono por noite, mas obviamente que isto também é variável, portanto, isto é uma média e uma recomendação global, mas adaptada depois a cada indivíduo. E para que isso aconteça, deve-se estabelecer uma rotina de sono regular, ou seja, deve haver horas para dormir, criar um ambiente que é propício para dormir, reduzir a exposição à luz antes de se deitar, de adormecer e obviamente, no nosso tempo atual, na nossa sociedade atual, evitar o uso de estimulantes, quer como a cafeína, quer a própria exposição aos ecrãs dos aparelhos eletrónicos e o que isto muito próximo da hora de dormir, que podem, de facto, interferir com a qualidade do sono.
Obviamente que ao adotar hábitos saudáveis de alimentação, praticar regularmente atividades físicas, garantir um sono adequado, é possível prevenir e tratar a obesidade promovendo a saúde e o bem-estar.

Ressalta-se a importância mais uma vez de ter o apoio de uma equipa multidisciplinar para que existam orientações personalizadas e um acompanhamento adequado do processo de prevenção e do tratamento da obesidade.


Que mensagem deixaria para quem está a lidar com a obesidade e sente dificuldades em encontrar ajuda?

A obesidade tem de ser encarada como uma doença. E uma doença crónica.
Por tudo isto, é extremamente importante tratar a obesidade, criar hábitos de estilo de vida saudáveis. E nós podemos tratar através destas mudanças que falámos, e por outro lado, há também um tratamento farmacológico e um tratamento cirúrgico, a cirurgia bariátrica, que existe e que são necessários sobretudo para determinados graus mais avançados de obesidade.

Mas mais importante ainda é prevenir a obesidade. Prevenir é mais importante que tratar e para tal deve ser orientado por uma equipa multidisciplinar. Médico, nutricionista, psicólogo, fisiologista do exercício que o ajuda a elaborar o tal plano personalizado para que conduza à adoção de hábitos de vida saudáveis. Atualmente, essa ajuda pode ser obtida de forma presencial ou digital, e nós somos um exemplo, nomeadamente na FHVC, dispomos dessa equipa e dessa ajuda personalizada. Agir precocemente para prevenir e combater a obesidade deve ser, de facto, prioritário.